“Deve ser uma candidíase resistente.”
Toda semana eu recebo no consultório alguma paciente que já perdeu a conta de quantos antifúngicos usou. Ela trata, melhora um pouco e volta. Trata de novo, e volta de novo. Depois de meses, às vezes anos nesse ciclo, ela chega até mim com essa certeza.
Na maior parte das vezes, não é.
O que encontro com frequência é vaginose citolítica, uma condição que imita a candidíase quase perfeitamente nos sintomas, mas que tem uma causa completamente diferente. E aqui está o detalhe que muda tudo: o tratamento para candidíase, que a paciente já tentou várias vezes, é exatamente o que piora a vaginose citolítica.
Neste texto eu explico o que é essa condição, por que ela é tão mal diagnosticada, e como o diagnóstico adequado muda o rumo do tratamento.
O que é vaginose citolítica?
Vaginose citolítica é uma alteração da flora vaginal causada pelo crescimento excessivo de lactobacilos, as bactérias que normalmente protegem a vagina. Parece contraditório, já que os lactobacilos são “os bons da história”, mas em excesso eles acidificam demais o ambiente vaginal e acabam rompendo as células do epitélio, um processo chamado citólise.

Quais são os sintomas
O quadro se manifesta com corrimento esbranquiçado, prurido intenso e ardência, sintomas que costumam se acentuar no período que antecede a menstruação. Não há odor forte associado, o que já é uma pista, mas raramente é suficiente para fechar o diagnóstico sem exame.
Por que é confundida com candidíase
A semelhança entre os dois quadros é quase completa. Corrimento branco, coceira e ardência aparecem nas duas condições, e o exame físico isolado não consegue distinguir uma da outra. Essa limitação não está no olhar de quem examina, está no próprio método: sem análise microscópica do conteúdo vaginal, os sinais clínicos se sobrepõem de tal forma que qualquer diferenciação seria suposição.
É por isso que tantas mulheres passam anos recebendo tratamento antifúngico sem nunca terem tido candidíase.
Por que o tratamento antifúngico piora o quadro?
Este é o ponto que mais confunde as pacientes, e que eu considero fundamental explicar com calma.
O papel dos lactobacilos e a acidez vaginal
A saúde vaginal depende de equilíbrio. Os lactobacilos produzem ácido láctico, responsável por manter o pH vaginal em uma faixa protetora: ácida o suficiente para impedir o crescimento de micro-organismos indesejados, mas não a ponto de agredir o próprio tecido.
Na vaginose citolítica, esse equilíbrio se rompe pelo excesso, não pela falta, de lactobacilos. A acidez ultrapassa o ponto protetor e passa a danificar as células da parede vaginal.
O que acontece com o pH vaginal
Quando uma paciente com vaginose citolítica recebe tratamento para candidíase, o antifúngico não encontra fungo para combater, e o sintoma permanece. Há ainda um agravante: certos produtos e condutas associados ao tratamento de candidíase podem reduzir ainda mais o pH vaginal, intensificando a citólise que já estava em curso.
É por isso que a paciente relata a sensação de que “nada funciona”. Não se trata de resistência ao medicamento. Trata-se de um tratamento direcionado a uma condição que ela não tem.
Como é feito o diagnóstico correto?
O diagnóstico diferencial entre candidíase e vaginose citolítica exige análise direta do conteúdo vaginal. É aqui que a microscopia se torna indispensável.
O que a lâmina revela
No meu consultório, localizado na Barra da Tijuca, eu coleto uma amostra do conteúdo vaginal durante a própria consulta. Em poucos minutos, ainda no mesmo atendimento, analiso o material ao microscópio.
Na vaginose citolítica, a lâmina apresenta um padrão característico: grande quantidade de lactobacilos, células epiteliais fragmentadas ou com núcleos desnudos e ausência de fungos ou de outros agentes que justifiquem o sintoma. É esse conjunto de achados que permite fechar o diagnóstico com segurança.
Na candidíase, o achado é outro: diferentes morfotipos do fungo aparecem de forma clara na lâmina, confirmando a presença do agente.
Por que o Papanicolau e a cultura isolados não resolvem
O Papanicolau é um exame fundamental, mas foi desenvolvido para rastrear alterações no colo do útero, não para avaliar a flora vaginal. Uma paciente pode ter um preventivo absolutamente sem alterações e ainda assim conviver com corrimento persistente, sem que haja qualquer contradição entre as duas coisas.
A cultura vaginal, por sua vez, se destina a identificar o tipo de Candida que existe naquele ambiente vaginal. A presença dela, sem identificação na microscopia, não significa infecção propriamente dita, pois a Candida é um fungo comensal do nosso organismo, ou seja, que vive nele, e em condições de equilíbrio da flora vaginal não se manifesta.
No meu consultório, aqui no Rio de Janeiro, a microscopia do conteúdo vaginal acontece dentro da própria consulta, o que elimina o intervalo de dias entre a coleta e a definição da conduta.
Qual é o tratamento para vaginose citolítica?
O tratamento segue uma lógica praticamente oposta à da candidíase, e compreender isso é o que interrompe o ciclo de frustração da paciente.
A lógica oposta à candidíase
Como o problema é o excesso de acidez, a abordagem terapêutica busca alcalinizar o ambiente vaginal, reduzindo a agressão às células e permitindo que o epitélio se recupere.
Ajustes de rotina e higiene
Junto com o tratamento, alguns ajustes fazem diferença no resultado. Evitar duchas vaginais, revisar produtos de higiene íntima, suspender o uso de absorventes internos e utilizar produtos adequados para a região íntima, que não interfiram no equilíbrio vaginal.
São mudanças simples, mas que sustentam o resultado a médio prazo.
Quando o acompanhamento é necessário
Uma nova análise microscópica serve para confirmar a resposta ao tratamento e ajustar a conduta caso os sintomas persistam, já que cada organismo responde em um ritmo próprio.
Vaginose citolítica tem diagnóstico e tem tratamento
Se você reconheceu a sua própria história neste texto, o mais importante é entender que o ciclo de tentativa e erro com antifúngicos não precisa continuar. A vaginose citolítica é uma condição real, com causa identificável e conduta definida. Ela exige apenas que a investigação vá além do exame clínico.
Atendo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com microscopia vaginal realizada durante a própria consulta.